MARX E ORTEGA
São dois pensadores diametralmente opostos, nada tem em comum, são como água e óleo, que não se misturam. Os une uma única curiosa coincidência: Ortega nasceu no ano da morte de Marx, 1883.
por Paulo Müzell - março de 2019
O primeiro, um alemão cartesiano, agregou à dialética hegeliana a visão materialista da história. Colocou de cabeça para baixo o pensamento idealista afirmando que a base material de uma sociedade é o que determina a sua consciência. A estrutura econômica – por ele chamada de modo de produção - molda as superestruturas: a moral, a religião, a cultura, a ideologia da sociedade. Karl Marx é seco, direto no estilo, suas complexas análises são objetivamente desenvolvidas sem qualquer preocupação didática, com a elegância ou o brilho. Quem leu ou tentou ler o Capital, especialmente naquelas velhas versões em espanhol, sentiu isso: um verdadeiro soco no queixo. Para divulgar sua obra contou com a preciosa colaboração de Friedrich Engels autor em parceria do clássico “A ideologia alemã”. Na vasta obra de Engels temos uma preciosidade: “A origem da família, da propriedade e do Estado”. Esta única obra, assim como “A teoria da Classe Ociosa” de Thorstein Veblen, bastariam para colocar esses dois autores na galeria dos grandes pensadores. Mas Engels foi além, teve o mérito de popularizar a hermética obra de seu parceiro em obras como “Do socialismo utópico ao científico” e “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, dentre muitas outras. Agregando à filosofia e à história um novo método e realizando uma profunda análise crítica da economia política clássica, Marx foi um inovador e um revolucionário.
O segundo pensador, Ortega, é um conservador, um intransigente defensor dos direitos da minoria. Ignora a luta de classes, divide os homens em dois grupos: uma maioria composta por homens “sem cara”, para os quais a vida é um “estar aí”. Vivem usufruindo “facilidades” existentes graças ao trabalho de uma minoria excelente que promove o avanço. A massa é um enorme contingente de “crianças mimadas”. O seu oposto é o homem excelso, que enfrenta a “bela aventura” do viver, um romancista de “si mesmo”, que molda seu destino e o do mundo. Para Ortega há, numa mesma classe social massa e minoria excelente. Ele alerta que o fenômeno da aglomeração provocou uma crescente ascensão da homem massa. A consequência é o aumento da brutalidade e da estupidez. A homem massa é um especialista: sabe muito de pouca coisa e ignora todas as demais: a autoconfiança o “autoriza” a atuar – desastradamente – em esferas e áreas que desconhece. O resultado é a fragmentação, a perda de uma perspectiva global, o retorno à barbárie. Ortega é dono de uma linguagem fluente, ritmada, melódica: um verdadeiro literato escrevendo filosofia.
Marx, sem nenhuma dúvida, é, de longe, o mais importante dos dois. Sua obra inspirou o surgimento de escolas de pensamento em todos continentes: Europa, América, Ásia e África. Decorridos mais de cento e trinta anos de sua morte tem, ainda, centenas de seguidores e, também, de críticos. Influenciou movimentos revolucionários que mudaram o curso da história. Desnudou a natureza e o caráter do capitalismo, um sistema que gera acumulação de renda e de riqueza de poucos em detrimento da exploração de muitos. A acumulação de capital nas mãos do proprietário dos meios de produção ocorre à custa da alienação do trabalhador: parte do valor que ele gera com o seu trabalho é apropriado pelo empresário: é a extração da mais valia. Marx acertou e errou. Diagnosticou o caráter predatório do capitalismo, a desastrosa concentração da renda e da riqueza que se acentuaria. Previu os desequilíbrios do sistema: as crises de superprodução, a transição do capitalismo industrial para o financeiro, a formação das “bolhas especulativas”. Só exagerou no otimismo ao acreditar na superação do capitalismo e na passagem para uma sociedade melhor, sem classes e sem a presença do Estado. As experiências – passadas e presente – de regimes não capitalistas não deram certo. Por outro lado, como Thomas Piketty e de Noam Chomski dentre outros tem comprovado à exaustão, a renda e a riqueza concentram-se de forma brutal nos países de capitalismo avançado - a maior economia do mundo, a dos Estados Unidos é um exemplo típico - gerando uma indesejada concentração de poder político que ameaça precária e insuficiente democracia burguesa: caminhamos a passos largos para uma plutocracia.
O grande mérito de Ortega, além do prazer que sua leitura proporciona, está no caráter profético da sua “A rebelião das massas”. Na sua vasta obra não pode ser esquecida, também, a admirável “Meditação da Técnica”. Quase noventa anos atrás Ortega previu a crescente e perigosa presença de um homem sem raízes, vulgar, que afirma e reafirma com orgulho seu direito à vulgaridade; que age sem prudência, muitas vezes com violência. Quer agir, não sabe como: falta-lhe organicidade e método. Nosso país nesses sombrios tempos de Bolsonaro é um exemplo concreto do caráter profético de sua “Rebelião”, escrita no início dos anos trinta do século passado. Aqui no Brasil especialmente, o cenário se agrava porque uma mídia criminosa, sem nenhum compromisso com a verdade, desinforma, fabrica versões que atendem aos interesses de uma oligarquia atrasada e predadora. Assim, quando a insatisfação popular cresce – e as organizações e os movimentos populares e sindicais estão em baixa – é o momento propício ao ataque: trabalham intensamente para inflexionar a política à direita. A crise atual - desemprego crescente, depressão -, além do cínico e falso discurso moralista que condena um propalado aumento da corrupção, criaram o clima e armaram o cenário que tornou possível o golpe. Em nome da moralidade e da legalidade colocaram um ficha suja na presidência. A crise dos poderes da República, a parcialidade da mídia e o crescente descrédito do judiciário destruíram a nossa frágil democracia. Episódios de repressão e de violência, de natureza claramente fascista se tornaram rotina. O exército dos “coxinhas” se multiplicou: as panelas ecoaram cada vez com mais força. A origem, de tudo, me parece, está lá nas manifestações de 2013. O desastre foi consumado: Bolsonaro presidente. Nada podia ser pior.
Fonte da Imagem: https://www.thisiscolossal.com/wp-content/uploads/2014/08/kerbow-2.jpg

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